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Crítica: O Amante da Rainha

En kongelig affære  – Dinamarca, Suécia, República Tcheca , 2012

Diretor: Nicolaj Arcel – Roteiristas: Rasmus Heisterberg e Nicolaj Arcel.

Ano: 2012  – Nota: ★★★★☆

Elenco: Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boe Følsgaard, Cyron Melville, Laura Bro, David Dencik, Trine Dyrholm.

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Não é raro nos depararmos com romances de época que, tediosos, se fazem valer apenas pelo belo visual que proporcionam. Na maioria das vezes, inclusive, a romantização dos fatos surge exagerada e contribui para que desconfiemos das intenções narrativas, diminuindo a intensidade da experiência e tornando-a obsoleta, descartável. Felizmente, "O Amante da Rainha" parece compreender que, numa adaptação pertencente a tal gênero, o pano de fundo histórico deve ganhar a devida atenção para que não seja ofuscado pelos toques fictícios inevitavelmente agregados ao enredo. Dessa forma, surge um projeto no qual elenco, equipe técnica e roteiro se unem e, de maneira harmoniosa, nos contam a história de uma Dinamarca prestes a compreender a força dos pensamentos iluministas.

Inspirados pelo livro "Prinsesse af blodet", de Bodil Steensen-Leth, os roteiristas Rasmus Heisterbrg e Nikolaj Arcel (este, também diretor) partem de um evento mínimo para pincelar a grande mudança a ser enfrentada pelo país europeu em pleno século XIII. Caroline Mathilde (Alicia Vikander), Princesa da Grã-Bretanha, se prepara para conhecer seu futuro marido e se tornar, com isso, Rainha da Dinamarca. Porém, ao perceber que o Rei Christiano VII (Mikkel Boe Følsgaard) está longe de ser o homem que há muito idealizara, a moça se vê presa a uma relação fadada às aparências e ao sofrimento. No entanto, o surgimento de um médico alemão chamado Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen) faz com que a moça sinta o gosto da felicidade enquanto alimenta suas antigas esperanças de ver uma nova Dinamarca se reerguer em meio aos horrores da Idade Média.

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É admirável como o roteiro do projeto desenvolve pacientemente seu ambicioso arco dramático, abordando de maneira satisfatória tanto o romance principal quanto o contexto desesperador no qual o povo de Copenhague está inserido. Pois se a apresentação dos personagens jamais decepciona (afinal, passamos a conhecê-los como figuras multidimensionais e, por isso, sempre fascinantes), é impossível não sentir o peso que o conservadorismo dinamarquês impôs sobre a vida de seu povo, num retrato de época grandioso não apenas do ponto de vista visual (sobre o qual comentarei mais adiante), mas também do narrativo. Assim, por mais que sua história aborde inúmeros acontecimentos (bem como suas respectivas reviravoltas), a verdade é que a imersão proposta pelo projeto é tão eficiente que o público dificilmente se cansa de acompanhá-la.

Essa imersão, vale dizer, também é fruto do ótimo trabalho de direção de Nikolaj Arcel. A todo momento aproximando sua câmera dos personagens principais, ele parece querer registrar cada expressão, cada tique e até mesmo cada suspiro daqueles que tornaram-se responsáveis pela mudança de uma nação. Assim, momentos como o ajeitar de uma roupa ou o desconforto que nasce de um embaraçoso ato sexual surgem como detalhes que dão verossimilhança àquelas figuras, tornando-as, além de tudo, humanas (ou seja, próximas a nós). Demonstrando compreender o roteiro em sua totalidade, o diretor investe também em planos abertos como forma de ressaltar o quanto seus protagonistas são parte do povo e não da burguesia na qual rostos individualizados ocupam todo o quadro. Além disso, como não admirar a cena em que Johann se depara com uma multidão ensandecida enquanto tenta mostrar (assim como a câmera) que faz parte dela?

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No entanto, os maiores destaques de "O Amante da Rainha" são mesmo seus personagens e, claro, as composições daqueles que os encarnam. A Caroline vista aqui exala elegância e beleza, não deixando de convencer como um ótimo partido e, ainda, como uma mulher forte o bastante para tomar atitudes firmes frente às manias de seu marido. Assim, a composição de Vikander ganha pontos por se afastar do rotineiro tom teatral que muitos atores e atrizes adotam em papéis como esse, preferindo encontrar em olhares, gestos mínimos e diálogos absolutamente naturais a força de sua representação (o que, curiosamente, me faz torcer para que Sally Field confira seu trabalho). Já o sempre intenso Mads Mikkelsen dá ao seu Johan a ambiguidade que todos temos como uma de nossas principais características. Pois se ao vê-lo imponente enquanto atende seus pacientes pode nos induzir a rotulá-lo como um homem certo de tudo que diz, a dúvida e o medo que emanam de seus gestos antes de uma importante entrevista nos permitem admirá-lo feito um de nós. Obviamente, seu arco dramático é um dos mais intensos, culminando em uma cena na qual suas lágrimas chocam por brotarem de uma figura que, minutos antes, parecia indestrutível.

E aí chegamos a Mikkel Boe Følsgaard e seu complexo Christiano VII. Alcançando a proeza de não se tornar uma caricatura mesmo tendo em mãos um personagem tão enérgico, o ator se utiliza de maneira invejável da doença de Christiano para, a princípio, nos irritar e, gradualmente, nos conquistar com o jeito quase infantil através do qual o personagem enxerga a vida. Porém, sua composição só alcança o sublime quando, através de um delicado aperto de mãos, ele justifica o porquê de não sentir tesão pela sua esposa, garantindo assim o título de destaque absoluto do projeto e, claro, comprovando ser merecedor do Urso de Prata que ganhou em Berlim.

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Já a fotografia de Rasmus Videbæk contribui ao dar ainda mais contraste às diferentes realidades vistas ao longo do filme, com destaque para a utilização de cores quentes, aconchegantes dentro dos aposentos da burguesia em oposição ao gélido (e opressivo) tom cinzento das ruas de Copenhague. A trilha incidental de Cyrille Auford e Gabriel Yared, por sua vez, acerta ao jamais chamar atenção para si, funcionando como extensão dos sentimentos dos personagens sem jamais ditar emoções ao público. Já o design de produção do projeto, em parceira com o espetacular figurino, fazem a tarefa de casa sem dever nada às recriações de época hollywoodianas ou de outras escolas.

Em suma, "O Amante da Rainha" reflete aquilo que pode ser considerado seu tema principal: a chegada da razão a um contexto tomado pelo conservadorismo. Pois o fato é que torna-se até mesmo um alívio poder conferir um projeto tão consciente de sua força se destacando em meio a um gênero que parecia fadado à insignificância absoluta.

E não duvido, inclusive, que Voltaire enviaria uma carta de agradecimento aos realizadores logo após assistir a tal êxito.

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